Segue um pequeno ensaio que escrevi em parceria com uma colega de classe sobre o livro O Conto do Inverno de William Shakespeare. O objetivo do ensaio foi discutir duas questões temáticas escolhidas por nós mesmos e elucidadas no primeiro parágrafo. A tradução utilizada é de José Roberto O’Shea. O nome do curso que participamos é Estudos em Shakespeare onde foi ministrado pelo mesmo tradutor desta brilhante obra. O presente ensaio encontra-se em sua primeira versão e não sofreu correções e mudanças.
O Conto de Inverno é uma das últimas obras de William Shakespeare que obteve grande sucesso após a primeira apresentação. O enredo da peça é bastante complexo tratando de vários temas, lugares e situações. Deste modo se tornou um desafio para a escolha de dois pontos para serem discutidos no presente texto. Abordamos aqui duas questões temáticas que envolvem esta obra, a saber: o intricado de traições e suas facetas paradoxais, pois este ato para nós é o tema que rege a peça, e como segunda questão temática as relações de amizade e lealdade entre os vários personagens da obra inclusive, os seres fantásticos.
A primeira questão a ser discutido na história O Conto de Inverno é com relação aos atos de traição e suas atitudes relacionadas, como vingança e ciúme. A traição norteia toda esta peça e acontece em variados níveis, sendo que em certos momentos da história parece que este ato se funde com outros temas. No início da peça a traição sempre aparece como uma imagem destruidora espalhando a infelicidade entre os envolvidos. No entanto esta traição que arrebata, ao final da peça tem como produto um recomeço e com isto espalha a felicidade aos cometidos de injustiça e desgraça.
Argumentando melhor a idéia do parágrafo anterior temos o rei Leontes que no primeiro ato acredita em uma suposta e infundada traição entre sua esposa a rainha Hermione e seu melhor amigo o rei da Boêmia Políxenes. No entanto, a verdadeira traição que acontece é cometida pelo próprio rei Leontes ao arquitetar um plano para matar Políxenes, seu melhor amigo, por acreditar que este o traiu com sua esposa. Nesta fase a traição aparece como destruidora, pois em decorrência de Leontes trair seu amigo e também trair sua família muitas desgraças ocorreram. Ao mandar prender sua esposa a rainha Hermione, o pequeno príncipe Mamilius, filho do casal, adoece gravemente. Porém isto ainda não foi nada, pois mais adiante quando Leontes arrebatado em sua loucura profana o oráculo de Apolo o jovem Mamilius vem a falecer. Outro ponto arrasador é que Leontes manda dar fim em sua pequena filha que acabara de nascer tantos fatos infelizes provocam a morte da casta rainha Hermione.
Evidentemente como a traição leva ao ciúme e o ciúme a vingança sempre aguardamos um final trágico no desfecho de uma peça que contenha tais ingredientes. Mas em O Conto de Inverno, Shakespeare concebeu uma bela reviravolta contra o final trágico. Esta reviravolta começa a ser tecida quando Perdita, filha enjeitada de Leontes, retorna aos domínios do reino de seu pai. Com tal acontecimento tudo começa a mudar com um novo recomeço que brilha no horizonte sombrio. O rei Leontes recupera sua filha Perdita e seu grande amigo o rei Políxenes, que vai em busca de seu filho que tinha fugido para viver com Perdita. Mas a felicidade dos personagens ainda não era plena, pois a falta da matriarca Hermione trazia um grande vazio. Para solucionar o vazio que a rainha causava, de uma forma quase que milagrosa, ela surge dentre os mortos na figura de uma estátua. Assim a vida vem a esta estátua graças ao encantamento da serva Paulina, trazendo grande alegria a todos. Este aparecimento fantástico de Hermione é o que está explícito na peça, mas subtende-se que Hermione simulou sua morte e se recolheu longe dos olhos das pessoas por dezesseis anos.
Levando o nosso olhar agora para a segunda questão temática que é sobre as relações de amizade e lealdade entre os vários personagens da obra, inclusive os seres fantásticos, veremos algo bastante interessante. Paulina mostra-se fiel à amiga e rainha Hermione, enfrentando até mesmo o rei Leontes. Ela não acreditava que a amiga teria traído o rei e então vai em defesa colocando até mesmo sua vida em perigo. Camilo também mostra ser um amigo leal dos dois reis, pois quer o bem de todos. Já Paulina reconhece o arrependimento do rei Leontes e em conseqüência se torna a conselheira e amiga do rei. Pode-se dizer também que o velho pastor e o camponês, após se tornarem nobres, viram amigos de Autólico. Eles, mesmo não acreditando no caráter dele, prometem jurar ao Príncipe que o vigarista Autólico é um sujeito leal e honesto. No mundo fantástico podemos dizer que Leontes fica amigo de Apolo por ter se arrependido de seus atos e em contrapartida Apolo recompensa o rei Leontes lhe restituindo o que ele havia perdido.
A partir deste pequeno texto foi possível mostrar algumas idéias sobre dois temas bastante latentes em O Conto de Inverno: a traição e a amizade. A história mostra a importância do perdão e da reconciliação, tendo como exemplo maior o perdão de Hermione e Políxenes à Leontes pelo mal que ele fez, e as conseqüências de se basear em “teorias” infundadas. O ciúme cegou Leontes e o fez agir com insensatez gerando várias tragédias. Era difícil ele mesmo se perdoar, porém a amizade e o carinho que tinham superou tudo e, fora a morte de Mamilius, as coisas voltaram ao normal.



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